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Sexualidade e Pornografia

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Por pornografia entende-se a representação, por quaisquer meios, de cenas ou objetos obscenos destinados a serem apresentados a um público e também expor práticas sexuais diversas, com o intuito de despertar desejo sexual no observador.

O termo deriva do grego pornographos, que significa escritos sobre prostitutas, originalmente, referência à vida, costumes e hábitos das prostitutas e clientes. Já o Dicionário Aurélio traz como uma das definições figura, fotografia, filme, espetáculo, obra literária ou de arte, relativos à, ou que tratam de coisas ou assuntos obscenos ou licenciosos, capazes de motivar ou explorar o lado sexual do indivíduo.

A pornografia tem uma longa história. A sexualidade explícita e sugestiva é uma forma de arte tão antiga quanto todas outras, como nos mostram desenhos feitos pelos homens das cavernas.

Quase sempre a pornografia assume caráter de atividade comercial. As mídias mais comuns para exibição de pornografia são o cinema, as revistas (fotografias ou ilustrações), e, mais raramente, pinturas e esculturas que representam, com maior incidência,  cenas eróticas, com destaque ao coito anal e símbolos fálicos. Até na própria Bíblia encontramos diversas passagens referindo-se principalmente a prostituição.

Mas o que é sexualidade?

Sexualidade é uma forma de linguagem do corpo, expressa o que nossa libido deseja e precisa ser liberada podendo produzir prazer ou desprazer. Além de nos fazer sentir mais vivos e permitir aos seres humanos ter ambição em viver.

 

Sexualidade também deve ser entendida no sentido mais amplo. Ou seja, não apenas a sexualidade genital. Em psicanálise, sexualidade é tudo que dá prazer: comer, dormir, as necessidades fisiológicas, entre outras.

 

Freud descreveu em Contribuições à psicologia do amor, de 1910 que:

 

“determinados homens se apaixonam por prostitutas porque as equiparam às suas mães; a prostituta é uma "mulher de outros homens", assim como a mãe é a "mulher de outro homem", o pai.”

 

E acrescenta em 1915:

 

"Do ponto de vista da psicanálise, o interesse sexual exclusivo por homens ou por mulheres também constitui um problema que precisa ser elucidado, pois não é fato evidente em si mesmo".  

                       

Pintura erótica em Pompéia

Na atualidade, mais precisamente em 2005, Bruna Surfistinha, uma garota de programa escreveu seu primeiro livro, que se tornou um Bestseler, rendendo matérias internacionais e contratos com editoras de mais de dez países.

 

E para surpresa de seus leitores, Carlos Drummond de Andrade, poeta mineiro de Itabira do Mato Dentro - MG, nascido em 31 de outubro de 1902 e falecido em 17 de agosto de 1987 escreveu inúmeras poesias pornográficas, eróticas e sensuais. Poesias estas que foram publicadas, após sua morte, em 1992 no livro “O AMOR NATURAL.  Rio de Janeiro: Record, 1992) Poesia erótica. Poesia sensual.”


A língua lambe

Carlos Drummond de Andrade


A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

 

Esta é uma das poesias publicadas neste livro. Mas não se choque!

Ele era apenas um homem que usava a poesia como meio de vida, mas, como qualquer ser humano, também sublimava os seus recalques.  E como homem público parece ter engavetado seus escritos, que possivelmente falavam de sua própria libido, preservando-se de comentários maledicentes de uma sociedade hipócrita e ambígua. Façamos aqui um parêntese para exemplificar: podemos citar o caso da prostituição; todas as vezes que a prostituição é penalizada e as prostitutas perseguidas, dificilmente ocorre o mesmo a seus clientes.  

 

Ao ler as suas poesias pornográficas nos remete a premissa de que no rastro da sexualidade caminha o amor ou no rastro do amor caminha a sexualidade. Assim, como a meta da pulsão é satisfazer-se a meta do amor é encontrar-se.

 

Freud sobre a formação das psiconeuroses diz:

 

“Sei que minha ênfase no papel da parte sexual na formação das psiconeuroses tornou-se conhecida [mas]... a multidão... retém de uma tese apenas o núcleo bruto, dela criando para si uma versão extremada e fácil de gravar. É possível também que muitos médicos tenham feito uma vaga idéia de que, como conteúdo de minha doutrina, eu atribuiria, em última análise, a neurose à privação sexual... Como seria fácil, com base nessa premissa, evitar o tortuoso e cansativo caminho do tratamento psicanalítico e dirigir-se diretamente à cura, recomendando, como meio terapêutico, a atividade sexual... Mas as coisas são diferentes. A necessidade e a privação sexuais são meramente um fator que entra em jogo no mecanismo da neurose; se houvesse apenas esse [fator], o resultado não seria a doença, mas [sim], a devassidão. O outro fator, igualmente indispensável, mas esquecido... [a] incapacidade de amar, esse traço psíquico a que chamei "recalcamento".”

 

Para Freud, o termo “amor” é reservado para o movimento do eu na direção do objeto para além da relação de puro prazer. Ou seja, ainda que, portando, a marca do pulsional (sexual), o amor a ultrapassa.

 

O QUE SE PASSA NA CAMA

 Carlos Drummond de Andrade

 

(O que se passa na cama

é segredo de quem ama.)

 

É segredo de quem ama

não conhecer pela rama

gozo que seja profundo,

elaborado na terra

e tão fora deste mundo

que o corpo, encontrando o corpo

e por ele navegando,

atinge a paz de outro horto,

noutro mundo: paz de morto,

nirvana, sono de pênis.

 

Ai, cama, canção de cuna,

dorme, menina, nanana,

dorme a onça suçuarana,

dorme a cândida vagina,

dorme a última sirena

ou a penúltima... O pênis

dorme, puma, americana

fera exausta. Dorme, fulva

grinalda de tua vulva.

E silenciam os que amam,

entre lençol e cortina

ainda úmidos de sêmen,

estes segredos de cama.

 

Numa sociedade dúbia e de falsos moralismos, dentro de quatro paredes nos tornamos poeta e recitamos pura pornografia no ouvido dos nossos amantes e buscamos a pequena morte: “o céu do céu”.

 

A castidade com que abria as coxas

Carlos Drummond de Andrade


A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

 

Não seria bem mais fácil e cômodo para todos os seres humanos falar de sexo naturalmente, sem torná-lo pragmático? 0u é a pornografia que dá mais emoção aos amantes? Porque a culpa aparece depois que nos damos ao direito de sermos um pouco poeta?

 

Freud vem nos dizer que:

"Os neuróticos afastam-se da realidade por achá-la insuportável - seja no todo ou em parte" (Freud, 1911: 237).

 

 A pornografia tem sido objeto de perseguições morais e religiosas por se acreditar que ela tende a corromper ou depravar, além de induzir à prática de crimes sexuais, por outro lado, observamos que ela está cada vez mais explícita, direta ou indiretamente, em diversos meios de comunicação e movimentando milhões de dólares todos os anos, segundo os próprios meios de comunicação. Mediante esta constatação pode-se pensar que o ser humano na impossibilidade de pensar, expressar e realizar sexo por puro prazer, busca no voyerismo uma forma de sublimação e satisfação da libido.

 

Freud diz que o aparato executivo da mente (o ego) rejeita iniciativas do inconsciente (o id) que estimulam comportamentos incompatíveis com nossa concepção civilizada de nós mesmos. A repressão é necessária porque esses impulsos se manifestam na forma de paixões incontroláveis, fantasias infantis e compulsões sexuais e agressivas.

Quando a repressão não funciona, dizia Freud até sua morte, em 1939, surgem às doenças mentais: fobias, ataques de pânico e obsessões, ambas com origem de fundo sexual.

 

E termino estas reflexões com uma citação feita por Sigmund Freud em entrevista ao jornalista americano George Sylvester Viereck em 1926:

 

"Mas tudo faltaria, se faltasse o sexo".

Walt Whitman

 

Sérgio Costa

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