“O que pode um homem ganhar mais na vida
do que o que lhe revela o deus-natureza;
como ele dissolve o sólido em espírito,
como ele mantém sólido o que o espírito gerou.”
Georg Grodek
O idioma materno flui facilmente na boca daqueles que falam sem sentir que estão sendo observados e criticados por não saberem escolher bem as palavras que vão usar.
A criança ao adentrar no mundo da linguagem pronuncia palavras isoladas, sem buscar a denotação das mesmas. Cria poesias e rimas, sem querer importar com a sua filologia. Não há a busca da consciência, e sim, “a livre expressão”. A cada tentativa de comunicar, sente-se livre da angústia, do não ser compreendida.
Assim, como o significado das palavras de um idioma não coincide exatamente com o significado das palavras de outro idioma, também, o alcance e conteúdo do seu conceito coincidem com a coisa real que ela quer descrever.
A perturbação da angústia e a ansiedade de descrever a sua embriaguez de emoções fazem com que a criança se lance no mundo da linguagem em busca da sua real necessidade de ser notada e, da sua inclusão na sociedade familiar. Se os pais não lhe dão tal espaço ou, já de cara, começam a lhe impor as palavras corretas e normas de linguagem (...), cria, em tal situação, o bloqueio.
Desvalorizando a manifestação real de suas emoções de fundo, e a ajuda vindo de forma a levar a criança a buscar expressões e manifestações de suas emoções primárias, essa criança refugia-se na frase carregada de sentidos (...), que nunca, por mais que se torne um sujeito rico em vocabulário e ou em alguém culto, vai conseguir palavras o suficiente para expressar suas emoções (...).
Sentimentos, emoções, foram feitos para sentir...
“Estamos envoltos e cingidos por elas – impossibilitados de sair delas”.
(Goethe)
Por fim, para sair da escuridão do inconsciente, surge a imago da mãe, pois seu desejo está impregnado no anseio de que seu filho fale com ela, e realize o milagre da fé (...). Que se torne humano para que possa falar dela, como uma semideusa que lhe deu a vida. E conte para tudo e todos de seus feitos.
E o infante brinca com as palavras. Anda, cresce, projeta suas primeiras produções como uma borboleta na primavera, voando linda e maravilhosa com suas cores, beleza e formosura, enchendo de brilho os olhos de quem a vê.
“E no fim, ávida de luz,
Tu, borboleta, és queimada.”
(Goethe)
De borboleta à lagarta preta, cabeluda que, só de tocar, joga toxinas na pele do outro e queima demais... Como dói... Aquele doce de candura, agora, só dá trabalho para estudar; não tem concentração, é dislexo, e até sofre de discalculia (como se fosse uma patologia sem cura). Não há mais uma livre expressão e nem estado de “motivação para”.
Estamos diante de um fato. Cada palavra da nossa linguagem, seja ela vocalizada ou construída silenciosamente no cérebro, é uma mentira que violenta os fatos, que nos leva a contemplar o mundo de maneira errada e a pensar de maneira errada. Pois, comunicar-se significa ter muitas regras gramaticais, normas, esforços (...). Segundo Sigmund Freud, isto é “princípio da realidade”. Temos que, nos dias de hoje, optar muito cedo, e por não termos boas opções para a nossa evolução dentro de um amadurecimento natural, junto com a mãe natureza, abdicamos do “princípio do prazer”, ou seja, deixamos de ser criança (...). As escolas e até mesmo as famílias estão a cada dia exigindo mais, querendo que a criança se alfabetize mais cedo. Sem contar com as aulas de inglês, espanhol, judô, balé, informática, reforço, etc...
Quando é que vai sobrar tempo para a criança ser criança? Por que aos 08(oito) anos ela já tem que estar “ficando”, aos 23(vinte e três) tem que estar formada na Universidade, aos 26(vinte e seis) já estar fazendo mestrado. Aos 34(trinta e quatro), no máximo, ser PHD, porque aos 40(quarenta) já é velha demais para conseguir um emprego no Brasil.
O que vai ser da nossa cultura? E do nosso jovem?
Dom Quixote só poderia ser considerado derrotado se não tivesse lutado.
Será que a globalização, a supervalorização da intelectualidade não está usando estratagemas para os países ricos perpetuarem sua dominação sobre os países pobres?
Não temos mais “Dom Quixotes!” A cada norma de linguagem, a cada especialização, a cada brinquedo eletrônico que substitui o cabo de vassoura, como o cavalo e um outro pedaço de pau que vira espada (...). Tudo foi trocado pelo computador. Os horizontes, os campos, os dragões, os vilões, as princesas e os nobres cavaleiros morreram, porque o Matrix poderá entrar no cérebro de outro e criar um mundo psicótico, pobre, sem aventuras...
As obras de arte são obras da natureza. O homem em contato com o chão, com as árvores, com as bactérias, com os vírus; “bicho de goiaba, goiaba é...” Só assim criamos anticorpos.
Talvez, alguns doutores, que por sorte minha, possam ler este artigo, lembrem-se das suas composições escolares - que papel desempenhavam nelas as descrições de suas próprias produções?
Lembro-me de tais momentos, quando lia Machado de Assis no seu romance “O Guarani - o índio Peri salvando a sua donzela. Como eu gostaria de viver tal proeza! Poderia dizer que vivi, quando lia aquelas páginas maravilhosas.
Quantos dragões enfrentei no meu cavalo de vassoura!
E vejo que só retomei o meu mundo de produções hoje, próximo aos meus 50(cinqüenta) anos de idade, quando voltei a “ser criança” outra vez.
Será que Jesus Cristo tinha razão? Entrar no reino dos céus é poder usar as faculdades mentais junto com o bom senso e a razão, exercendo a possibilidade de se sentir um ser produtivo? Seria essa a promessa bíblica de um grande gozo?
Eu ainda continuo gozando. E como é bom! Se a minha primeira professora, Dona Maria Luiza, do Grupo Escolar Sandoval de Azevedo, ainda estiver viva, e quem sabe ler : “a senhora sim, foi a verdadeira psicanalista em minha vida. Foi quem me ensinou a gozar...
“Na escolinha 9+8=16, ai Meu Deus, que bom seria ser criança outra vez...”
Paulo Sérgio
“Oh Deus, salve a América do Sul...”
Ney Matogrosso
Prof. Sérgio Costa