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Alguns fragmentos da música composta e cantada por Sérgio Bitencourt para seu pai, nos últimos meses ficaram martelando em minha cabeça(...). Coube uma reflexão, e porque não, uma auto-análise? “Naquela mesa ele sentava sempre e me dizia sempre o que fez de melhor. Naquela mesa ele contava estórias, que hoje na memória eu guardo e sei de cor; naquela mesa ele dizia contente o que fez de manhã... E nos seus olhos era tanto brilho que mais que seu filho, eu fiquei seu fã... naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”.

No meu trabalho clínico, venho tomando contato, a cada momento, com a realidade de uma nova geração que está para eclodir: filhos sem pais, ou filhos e cem pais?! Estas grandes perguntas me levam a pensar...

Não sei por onde começar(...). Mas poderia ser pela análise de história com “h” e não “estória”.

A letra desta música me remete a Hartman em seus trabalhos sobre relações objetais. Não poderia dar prosseguimento a este artigo, se não comentasse uma experiência que tive em uma de minhas palestras em um colégio em Belo Horizonte.

Fiquei muito assustado. Quando adentrei no auditório do colégio Nossa Senhora das Dores, para falar para pais e mestres sobre psicanálise e educação, vi na platéia vários jovens na faixa etária de aproximadamente 17 anos. Fiquei um tempo em silêncio, pensando como começaria aquela palestra, para qual fui convidado. Pois todo o sistema de educação no nosso país passa por um momento de muita confusão e anarquia(...). Como falar destas coisas para jovens, e colocar mais complicadores para estes se sustentarem na falta de limites, que tanto nas escolas quanto em seus próprios lares estão sendo vividos.

Aí então, veio à minha cabeça esta música, que vem me atormentando já faz uns bons meses. E foi então, que eu larguei toda a trajetória de um tema pormenorizado que havia escolhido, junto com a direção da escola, para trabalhar.
E comecei a minha palestra com a aventura gratificante da parte do impulso de vida, que gritava, naquele momento, no meu ser.

Me dirigi a um jovem que estava sentado na primeira fila e perguntei seu nome. Perguntei, ainda, nos 7 dias da semana, quantos dias ele almoçava e jantava com sua família. A sua resposta foi direta, nua e crua:
-“Nem um dia”.

Podemos, como servidores e depositários fiéis da transferência analítica, querermos realinhar uma história de vida, para que haja um sucesso terapêutico, se a história do sujeito analítico não lhe foi inscrita ou não está no seu registro a introjeção do pai(...)?

Todo um trabalho de arqueologia, que o grande mestre, Sigmund Freud, descrevera, depende de um sítio fundamentado na história do seu povo, da sua linhagem.

Estou querendo dizer com isto, que a competência da psicanálise se baseia nas competências corporais, emocionais e cognitivas do profissional. Estas estratégias podem ser elaboradas de forma colaborativa, nas sessões psicanalíticas, para poder reduzir o mal estar. De modo análogo, o que se propõe para o analisando com as associações livres, que não estão livres, é detalhar quais são as emoções que o problema usa para continuar a ter poder: tristeza, vergonha, valores... O analisando identificando estes efeitos, é, uma ferramenta poderosa que amplia a externalização, dado que, o engloba no “plano” do problema que o aflige e permite mobilizar competência, contra estes agentes hospedados no seu psiquismo, que são parasitas sugando suas energias.

Neste processo, o analista pode decidir, qual o momento de pontuar e devolver para o analisando, o que é de competência dele. Externalizar as emoções reprimidas e disfuncionais associadas ao medo, faz com que o sujeito fique fixado, em um portal do tempo já esquecido e enterrado pela evolução do tempo linear. O analisando hoje está submetido a um corpo de homem, mas a uma alma de criança, dando respostas ao meio, de forma infantilizada trazendo-lhe grandes prejuízos emocionais e concomitantemente materiais.

As pessoas não são, simplesmente, narradores de histórias. São narradores de histórias envolvidos emocionalmente. Isto é, elas grifam aquelas partes da sua autonarrativa , com as quais estão afetivamente envolvidas. Não contam as suas histórias como um historiador contaria. O ser humano é paixão, vive paixões. Até para elaborar e viver uma vida adulta mais estabilizada(...).

Qual de nós, não se apaixonou pela sua mãe e tentou afastar seu pai desta história de amor? Se nesta história, o homem não tiver a presença de outro homem, que chamamos de pai, e a sua presença não for marcada como um rival, como a reconstituição para poder reescrever a sua história poderá ser feita?

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